“1988, chet baker”, de manuel de freitas

“Prometeu que tocaria My

funny valentine como nunca

o fizera, E foi, também na voz,

verdade (a verdade é sempre

uma coisa muito triste;

faltavam-lhe duas semanas para morrer).

Comprei o disco quase vinte anos

depois, e só por difícil acaso

o fiz naquela cidade, com a

mesma ou nenhuma vontade de morrer,

agora que volta a dizer ‹‹Stay

little valentine ›› e a chuva torna

as bicicletas uma metáfora evitável,

contrária à ferrugem do que sinto.

Sim, é isso: ninguém nos espera

– e nem todos sabemos voar, sofrer,

cantar assim o desconforto.

Nada deveria ser tão triste,

até porque nada deveria ser.

Mas não me roubem, por favor, esta canção.”

Manuel de Freitas in Jukebox 1 & 2

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“1957, billie holiday”, de manuel de freitas

“Não pude estar lá, confesso.

Poupa-nos imensas lágrimas,

virtuais ou nem por isso,

o tempo que não vivemos.

À distância, contudo, aflige-me

a cadeira onde morria

um sorriso que já só no chão

se fazia voz – um modo

de perder apenas compreendido

pela outra (?) voz de Lester.

O mais, admito, pouco

me interessa. Dispensava até

o inflamado frémito de Roy

Eldrige, sujando a elegia

de que era, afinal, mero figurante.

À sombra de uma cadeira.

a morte; nestes versos,

insonoros,  o não saber morrê-la.

Manuel de Freitas in Jukebox 1 & 2