“Palavras de CCB”, texto de José Duarte

porque será que (quase) tudo neste mundo muda?

salvam-se os vícios os defeitos os comportamentos íntimos

da maledicência pela maledicência

da inveja por maldade maldade pura

os anos que se ganham perdem? nos ascensores em que cada viagem dura segundos

um terço da vida que se perde ganha? ao sono dormindo

nada é verdade

até mentir é verdade na razão para mentir

é mentira que se mente

a verdade está na mentira por próprias razões que a inveja conhece

pior que tudo isto só o(s) barulho(s) o(s) ruído(s)

abaixo o ruído!

dos aviões nos concertos em Serralves na Gulbenkian

em restaurantes os garfos chocam com as colheres

e estas com as facas que por sua vez empurram os garfos

que por sua vez acabarão por ser atirados contra…

«contra os canhões marchar marchar»

não percebo a letra deste hino nacional

gosto de silêncio e de silêncios

mas não o sobre David Sanborn (nos link)

ninguém lhe dá o valor que ele tem e mostra em saxalto

toca melhor jazz do que muitos que aparecem nas capas das revistas

e que pisam palcos de festivais jazz portugueses

Serralves foi fácil graças a êxitos repetidos no estrangeiro e em Portugalito

Gulbenkian é mais difícil pois há risco que regra geral dá para perder

talvez não em 2011

nos links escolhidos para este Riff vê-se tocar Sanborn com outros excelentes jazz ou bluesmen:

Marcus Miller, Steve Gadd, Eric Clapton ou Joe Sample todos desconhecidos da maioria dos paisanos

cumo eclético e apreciador de minorias que sou gosto do silêncio que os rodeia

gosto de ouvir Música só e sozinho com as músicas e os músicos

só assim os aprecio e eventualmente me comovo com uma frase uma sílaba um balanço

com o CCB cheio para GG Gilberto Gil

JJ é Jacinto João foi footebulista fintava bem

CCB não é Camilo Castelo Branco é Centro Cultural de Belém

assisti isto é fui a jogo e dancei MPB – todos em pé! mesmo todos – de superior qualidade com o povo (brasileiro sua maioria) que enchia o grande (para Portugal) auditório

um ganda espetáculo!

há 45 anos quando o ‘Cinco’ sestreou na Renascença recebi via CTT uma missiva apócrifa:

«concerto não se aplica a jazz espetáculo isso sim»

ao que a reação chega!…

CCB ao escrever seu conto ‘A viúva do enforcado’ utilizou seguintes palavras portuguesas entre outras:

aljôfar

surrador

ameigasse

estipêndio

atrigada

anspeçada

abencerragem

doudejar

brotoeja

deletreava

prebendado

lagalhé

banazola

rosalgar

aldravou

elanguescer-se

penugento

deprecadas

redoiça

valetudinária

postema

esmaecia

ulcerou

jactancioso

traspassasse

arroubado

estouvanado

espedaçar-se

facinorosos

cabido

melhormente

fulgura

cálix

abafações

gafados

desafogando

escumilhas

conezia

tropeada

objurgatória

aguazil

alcaidaria

acorçoava

bonzos

ensandecido

guinas

abegão

delinqui

atassalhamos

afervorou-se

certa noite chez JLBarreto ouvi-o cantar uma peça de Cecil Taylor enquanto o pianista gravado a tocava

JLBarreto foi da Música

hoje há Taylor em Lisboa…

José Duarte

5 de Agosto de 2011